Neto de Drummond organiza livro de anotações do avô

O poema Quadrilha, de Carlos Drummond de Andrade, vem, desde sua publicação em Alguma poesia (1930), gerando inúmeras variações. Flaviano, Maria das Dores e Clara, personagens da versão que abre este texto, foram três dos 14 filhos que Carlos de Paula Andrade e Julieta Augusta Drummond de Andrade tiveram. Ou seja, irmãos do próprio poeta, o filho de número nove do casal, nascido às 6h de 31 de outubro de 1902, em Itabira.

A “Quadrilha” acima tem o dedo do próprio Drummond. Todas as informações foram tiradas da árvore genealógica que o poeta fez de sua família, reproduzida em edição fac-similar na parte final do recém-lançado Uma forma de saudade – Páginas de diário (Cia. das Letras, 192 páginas). O livro, organizado por Pedro Augusto Graña Drummond, de 57 anos, caçula dos três netos do poeta, traz à luz partes inéditas de seu diário. Boa parte dele foi publicado em 1985, em O observador no escritório. Os escritos editados agora, nos 115 anos de nascimento e 30 de morte de Drummond, eram “coisas muito particulares”, “uma forma de saudade”, como Drummond afirmou, em 1984, em entrevista à filha, Maria Julieta.

O livro reúne recordações sobre a família, transcritas na ordem (por data de morte) em que o autor as guardou. É o pai, Carlos de Paula Andrade, quem abre o baú de lembranças dos Drummond de Andrade. “37º aniversário da morte de meu Pai. Já vivi mais tempo sem ele do que com ele vivo. E nada fiz hoje, nada, em sua memória”, escreveu Drummond em 28 de julho de 1968.

Nas lembranças, também aparecem a mãe, Julieta Augusta, os irmãos Rosa, Flaviano, Altivo, José e Maria das Dores, a cunhada Ita e dois amigos, Manuel Bandeira e Rodrigo Melo Franco de Andrade. Costurando o diário, uma série de fotos (algumas inéditas) e poemas.

FÓRUM A 12ª edição do Fórum das Letras, que termina neste domingo (26) em Ouro Preto, homenageou Drummond, adotando como tema Sentimento do mundo. Pedro Graña participou do evento. Ele é o curador da exposição Drummond no calçadão. A mostra, em cartaz até as 21h de hoje no anexo do Museu da Inconfidência, traz uma réplica da estátua do poeta no calçadão de Copacabana, trechos de poemas e do diário.

“Nos últimos 30 anos, li ocasionalmente trechos do diário. No início deste ano, resolvi ler tudo, de cabo a rabo. Além de me emocionar, senti uma dramaticidade, apesar de ser uma narrativa isenta, pois dá conta dos acontecimentos de forma neutra”, comenta Pedro, que vive no antigo apartamento do avô, na Rua Conselheiro Lafaiete, 60, em Copacabana.

Uma forma de saudade não é o primeiro volume com escritos de Drummond que o neto organiza. Já foram publicadas as antologias temáticas Quando é dia de futebol, A declaração de amor – Canção de namorados e Receita de ano novo. Estão prontas, aguardando publicação, a antologia Lanterna mágica (com textos sobre cinema), outra sobre animais e ainda uma terceira com textos de mistério (o aniversário do poeta é em 31 de outubro, mesma data do halloween).

Idealizada pelo artista mineiro Léo Santana, a estátua de Drummond instalada no calçadão de Copacabana em outubro de 2002 para celebrar seu centenário é campeã de popularidade entre as reproduções, em tamanho real, de figuras célebres que viveram no Rio de Janeiro. Também campeã de depredações (os óculos já foram danificados mais de 10 vezes) e alvo constante das lentes de Pedro. O neto contabiliza 30 mil fotografias da estátua.

A publicação que ele espera fazer já tem título, Biografia de uma escultura. “Já passei por situações engraçadas. O estilista Ronaldo Fraga me procurou quando fez uma coleção em homenagem ao Carlos para a São Paulo Fashion Week. Ele queria uma foto na estátua. Quando fomos, havia uma senhora meio maluca, com um biquíni mínimo, que não deixava ninguém se aproximar dela. Num dos momentos de distração dela, o Ronaldo e o músico Billy Forghieri conseguiram se sentar (ao lado da obra). Quando ela viu, foi para a frente da gente e mostrou a bunda”, recorda Pedro.

Desde 2012, toda a obra de Drummond está com a Companhia das Letras. A editora programa lançar em 2018 uma biografia escrita por Humberto Werneck. Pedro apoia o projeto. “O Humberto já esteve lá em casa, gosto muito dele. Ele tem toda a liberdade para escrever e eu, eventualmente, para discordar ou concordar. Há pontos polêmicos na vida do Carlos, como se ele colaborou ou não com a Ditadura Vargas (foi chefe de gabinete de Gustavo Capanema, ministro da Educação de Vargas entre 1934 e 1945). Acredito na palavra dele (Drummond), que sempre disse que sua função era burocrática e que a política era do Capanema. Mas tem gente que prefere polemizar. De qualquer jeito, o biógrafo pode escrever o que achar, se conseguir comprovar. Não sou eu quem vai dizer se vai publicar ou não.”

TRECHO
Sobre Manuel Bandeira*

“O poeta conta como foi assaltado por Lourdes: ‘Era minha admiradora e queria estabelecer contato comigo. Mas telefonava sempre à noite, quando eu não estava em casa. Um dia me pegou. A voz era tão segura e tranquila que me inspirou confiança. Eu sempre evitei me complicar mantendo casos com mulheres de temperamento difícil. Acho que esse negócio de trepar deveria ser uma coisa simples; duas pessoas se encontram e, como se desejam, vão dormir juntas, sem necessidade de romance. Justamente para evitar casos complicados é que tenho deixado de comer muita mulher boa nesse mundo. Pois dessa vez me enganei, e o resultado é que hoje ando muito preocupado. Ainda há dias tivemos uma cena forte. Ora, amor mesmo, eu só tive dois casos na vida: um foi madame Blank (a holandesa Frédy Blank, casada); o outro, a Estrela da Manhã (Maria Barroso,

ex-mulher de Assis Chateaubriand). Por madame Blank farei qualquer coisa na vida…’ É a primeira vez que Manuel me fala de seus amores; dir-se-ia que a idade e o estado de saúde o animam a isso. Sorrio discretamente, a escutá-lo”
Trecho do diário de 29 de dezembro de 1951

Carlos Drummond de Andrade – Uma forma de saudade – Páginas de diário
Organização: Pedro Augusto Graña Drummond
Editora: Companhia das Letras (192 páginas)
Preço sugerido: R$ 59,90

Uai

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