Mãe que adotou sobrevivente de aborto e com surdez, cegueira e autismo relata ‘luta pelo sonho’

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Há três anos, Rosana Mamedes Bernardo era mãe de dois filhos, sendo um biológico e uma adotiva. Ela e o marido, que moram na cidade de Patos, no Sertão da Paraíba, aguardavam há dois anos na fila de adoção por outra criança, quando receberam uma ligação da maternidade. O tão sonhado terceiro filho se tornava realidade. Ao chegar ao hospital, o casal encontrou um bebê que nasceu com 25 semanas de gestação, resultado de um aborto, pesando 700 gramas, com risco de ter várias deficiências e que poderia não sobreviver. Mas, para Rosana, isso não foi um obstáculo.

“Foi amor à primeira vista. A gente tem renunciado a muita coisa para lutar pelo sonho de ser mãe de mais de um filho”, disse.

O casal foi o sexto da fila a conhecer o bebê. Lázaro, como foi chamado por Rosana e Moisés, estava sozinho na maternidade há pouco mais de um mês e a equipe médica alertava os pretendentes que, até que o recém-nascido ganhasse um quilo a mais, era preciso que a mãe estivesse todos os dias no hospital com ele. Com isso, muitos desistiram.

“Tinha aquelas incubadoras cheias de crianças, esperava ser uma criança ‘cheinha’, gordinha, mas quando a gente se deparou com ele pesando 700 gramas, a gente se apaixonou. Aquele ‘tisquinho’ de nada, só aquela respiração, bem pouquinha. E foi quando o médico falou que ele estava ali só precisando do amor de um pai e de uma mãe”, afirmou.

Ao determinar no processo de adoção o “perfil” desejado, o casal havia dito que queria crianças acima de três anos de idade. Pois, durante a gravidez, que foi de alto risco, Rosana descobriu um nódulo na coluna e uma hérnia de disco. Assim, não poderia carregar peso. Contudo, ao receber a ligação do serviço social do fórum e ao conhecer Lázaro, esse pensamento mudou. “Foi lutar por ele, a gente teve que achar que não tinha problema nenhum de saúde”, declarou.

Ao longo do tempo que o bebê ficou internado na Unidade de Terapia Intensiva (UTI), Rosana, que hoje tem 34 anos, o acompanhava todos dias, das 13h às 17h. “E ele foi engordando, ele foi dando sinal de vida, cada dia ia saindo de um aparelho. Depois ele já estava nos meus bracinhos e todo dia era um sinal de vida que ele dava, que estava melhorando”, pontuou.

Depois de sair da UTI, Lázaro foi encaminhado para a chamada “sala canguru”, de acordo com Rosana, onde ganhou o peso que precisava. Nesse período, ela chegou a produzir leite para amamentá-lo, mas não pode, porque precisaria tomar uma reposição hormonal.

Como a paraibana só teve direito a licença maternidade quando ele recebeu alta, Rosana contou que as irmãs dela se revezavam para acompanharem a criança no hospital. Ela, por vezes, ficava com ele no período da noite.

Após quatro meses, finalmente Rosana e Moisés puderam levar o filho para casa. Para isso, porém, foi preciso comprar equipamentos, como um cilindro de oxigênio, montar uma estrutura e aprender alguns procedimentos de emergência, já que o casal não morava perto do hospital e havia o risco de que ele tivesse uma parada respiratória.

‘Quando a gente achava que estava tudo bem…’

Quando completou um ano de idade, Lázaro foi diagnosticado com surdez total, conforme Rosana, que contou que ela e o marido fizeram um curso de libras para poderem se comunicar com o filho.

Entretanto, pouco tempo depois, a criança foi diagnosticada com outro problema de saúde, que não tinha sido identificado até então porque ele passava muito tempo no colo.

“Quando a gente achava que estava tudo bem, fizemos o exame do olhinho dele e diagnosticou que ele também era cego, porque até um ano ele era de braço, era muito molinho. Então o médico diagnosticou que ele tinha catarata congênita, ele tinha uma cegueira muito profunda”, explicou.

Após isso, a equipe médica da maternidade comentou com Rosana que ele poderia ter outros problemas de saúde, por ter nascido prematuro. “Mas a gente se apaixonou por ele. Não é nem questão de caridade, foi amor mesmo. Então a gente aceitou ele, do jeito que ele estava, nós não vimos obstáculos”, disse.

“Não vimos dificuldade em dar amor a ele, mesmo sabendo que isso custaria nós desistirmos de muitas coisas da vida toda. E é o que tem sido até hoje”, destacou.

Meses depois, os médicos constataram que Lázaro dava sinais de quem estava ouvindo e, por isso, ele passou a utilizar um aparelho auditivo. Por volta dos três anos de idade, ele também foi diagnosticado com autismo.

A rotina: ‘mudou para melhor’

Hoje, os filhos – Miguel e Jhennyfer, de 11 anos, e Lázaro de três anos – frequentam a escola durante a manhã, período em que Rosana trabalha. O pai ajuda os dois mais velhos a se arrumarem, enquanto Rosana prepara o mais novo.

“Meu esposo é um paizão, é daquele que amanhece o dia fazendo o lanche, ajudando também, até porque uma manhã é só para aprontar Lázaro para deixar na escola”, disse.

O filho mais novo faz terapia ocupacional e sessões com uma fonoaudióloga, além de participar de atividades da Organização Não Governamental Essor. Tendo em vista as condições de saúde de Lázaro, Rosana teve a carga horária reduzida no trabalho, o que é garantido por lei. Ela o acompanha nos atendimentos e, quando ele adoece ou acorda com alguma crise, fica com o filho.

Por Lázaro ser autista e ter dificuldades para se comunicar com outras pessoas, que não os pais, o casal também precisa avaliar quando e para onde vai sair.

“Muitas coisas que a gente realizava, a gente deixou de realizar para estar com ele, para saber que ele está bem”, comentou. Apesar disso, Rosana não se arrepende.

“O que mudou na minha rotina? Acho que mudou para melhor, eu era só de casa para o trabalho, só tinha Luiz Miguel e ele pedia muito por um irmão, me pedia demais. Como a gestação dele foi de alto risco, eu tinha medo. Como eu já tinha irmãos adotivos, o sonho da gente era ter a família grande então a gente optou por adoção”, explicou.

‘Perguntam se o amor é o mesmo’

De acordo com Rosana, ao verem todo o cuidado direcionado para Lázaro, as pessoas questionam se há uma diferença no amor pelos filhos.

“Muitos perguntam se o amor é o mesmo. Eu sempre digo assim ‘o amor é o mesmo, só os cuidados que são diferentes’. Cada um a gente tem um cuidado diferente e no caso de Lázaro é quem mais requer cuidado nosso. Mas Miguel teve essa virose e nós estávamos com mais cuidado com Miguel do que com Lázaro, porque Lázaro estava sadio”, salientou.

Segundo a mãe, ao saber que ganhariam um irmão, Miguel e Jhennyfer aguardaram ansiosamente durante os quatro meses que ele passou internado. E, embora exista uma dificuldade de comunicação, a relação entre os irmãos é tranquila, porque eles entendem a situação que os pais explicam. “Não têm ciúmes um do outro”, frisou.

Ela também contou que a luta pelo sonho de ser mãe veio acompanhada de críticas e preconceitos. “A gente tenta explicar de várias maneiras para as pessoas, porque ainda é desacreditado. Muitas pessoas dizem assim, ‘ah, vocês são novos, um casal novo desse jeito com dois filhos adotivos? Vocês são loucos!’”, afirmou.

A servidora pública relatou que, quando ainda estava na maternidade com Lázaro, foi abordada por uma funcionária que questionou a escolha do casal.

“Uma assistente social que falou que um casal novo poderia estar adotando uma criança sadia, ‘perfeita’, mas isso não afetou meu psicológico, porque, quando entrei na fila de adoção, a gente queria um filho, independente do jeito que viesse, então Deus nos atendeu do jeito que a gente falou”, ressaltou.

Experiências

Rosana contou que, hoje, ela e o marido compartilham as experiências que tiveram com Lázaro e Jhennyfer em cursos de formação, oferecidos pelo Tribunal de Justiça da Paraíba, para outros casais que pretendem adotar.

“A demora pelo processo de adoção é mais nós, pais, por querer um filho perfeito. Sem saber que, muitas vezes, se sair de dentro de gente, a gente não tem como dizer um não para uma criança. Tiram dúvidas, fazem perguntas, como ‘como foi para se apaixonar?’”, relatou.

Após essas palestras, como pontuou, casais os procuram para contar que decidiram ampliar o perfil do filho desejado. E essa é uma das felicidades da servidora pública e do marido.

Rosana contou que, na noite anterior à ligação que informou que Lázaro estava na maternidade, ela sonhou que segurava uma criança nos braços. No entanto, o sonho de ser mãe não parou por aí. Hoje, ela e Moisés continuam pensando em aumentar a família.

“Estamos planejando, quando Lázaro estiver mais adolescente e mais independente, adotar outra criança”, compartilhou.

G 1 PB