Mulheres encontram espaço de igualdade em rodas de capoeira de Campina Grande

133

A vendedora Jaciara Xavier, 31 anos, trava uma batalha diária de busca por igualdade, espaço e respeito, nos mais diversificados ambientes que frequenta, pelo simples fato de ser mulher. Na sua constante busca por representatividade, em uma sociedade ainda marcada pelo patriarcalismo, ela encontrou um lugar onde essas questões parecem ser colocadas de lado, sem deixar margem para o preconceito: as rodas de capoeira do projeto social ‘Capoeira Inclusiva’, desenvolvido em Campina Grande, que reúne cerca de 300 homens e mulheres de várias idades.

“Na capoeira não tem distinção de cor, nem de sexo, nem de idade. Na roda a gente aprende muito sobre respeito. O problema é quando você sai, porque, infelizmente, rola um preconceito muito grande ainda por parte de quem tá de fora e não conhece. Mas eu procuro não dar ouvidos a esse tipo de comentário”, pontuou Jaciara.

Ela reiterou que, enquanto está nas rodas de capoeira, se sente em posição de igualdade com todos a sua volta, muito embora a prática ainda carregue um estigma de ser predominantemente marcada pela presença masculina.

Independência financeira

Sem dar importância para os comentários negativos, Jaciara construiu uma relação com a capoeira que ocupou cada vez mais espaço na vida dela. Ela começou a se envolver com a prática aos 15 anos, por curiosidade, e não se distanciou mais.

O envolvimento foi tão intenso que ela conquistou a independência financeira dando aulas de capoeira por um tempo, além de ter constituído família participando das rodas. “Foi na roda que meu filho foi gerado, andou, falou e está crescendo. Eu brinco que a música de ninar dele, que hoje está com 12 anos, era o som do berimbau”, relembrou Jaciara.

Desafio perpassa gerações

Atualmente monitora de corda laranja com pontas azuis, Jaciara não se imagina mais distante da capoeira, sentimento que é compartilhado por quem, apesar de não ter tanta experiência ainda, já não consegue pensar em largar as rodas de capoeira, como é caso da estudante Graziela da Silva, 17 anos.

Ela começou a jogar capoeira há pouco mais de um ano e o nível dela é representado através da corda verde, que simboliza a primeira graduação. Apesar de estar na roda há bem menos tempo que Jaciara, assim como a colega, Graziela se encontrou nessa prática, mas ainda precisa lidar com o preconceito por ser mulher e, ainda por cima, capoeirista.

“Quando eu disse que queria participar da capoeira muita gente veio falar comigo, dizendo que isso era ‘coisa de homem’. Mas eu via minhas amigas participando e não achei que fosse problema nenhum participar também. Quando comecei, vi que não tinha nada disso e que o preconceito estava só lá fora, não aqui dentro. Hoje a capoeira é a minha vida. Eu era uma pessoa muito fechada e depois que passei a participar das rodas fui me soltando mais. Agora eu sou outra pessoa. Mudei para melhor”, comentou Graziela.

Valorização da mulher

A consciência do poder da mulher, dentro e fora das rodas de capoeira, que Jaciara e Graziela têm não foi adquirida de forma aleatória. De acordo com o Mestre Pequeno, um dos responsáveis pelo projeto social Capoeira Inclusiva, durante as rodas de capoeira os integrantes são remontados a um contexto histórico, com uma explanação sobre a cultura afrodescendente, e levados a refletir, também, sobre o papel da mulher na sociedade.

As músicas entoadas nas rodas também trazem consigo uma caráter emancipatório e de valorização da mulher, com versos de exaltação da força feminina, de empoderamento e de rejeição à violência. Conforme o mestre, é feito um trabalho de conscientização, que busca, sobretudo, tocar quem vive em situação de vulnerabilidade social.

“Para muitas pessoas que participam do projeto, a capoeira é a única opção de cultura, esporte, lazer e até de profissionalização. Aqui, homens e mulheres participam de forma igual. Pessoas de ambos os sexos e de várias idades fazem parte do projeto e aprendem nele que não tem essa história de tratar a mulher de forma inferior. Nosso ideal é que todos entendam sobre respeito e igualdade de direitos”, frisou mestre pequeno, que desde 2003 busca sensibilizar pessoas através do projeto social, que contempla bairros como o Jardim Continental e José Pinheiro, com atividades de segunda a sexta-feira.

G 1